
por Giscard Luccas
O ovo e a galinha
O prefeito Gilberto Kassab, em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, declarou que a completa recuperação da região central passará pelo incentivo a ocupação noturna, com bares, restaurantes e prédios residenciais, misturando as classes média e baixa. Faça uma lista de quem mais, nesse momento, se arriscará a instalar um desses estabelecimentos em um local praticamente inóspito após as 19 horas. Em outra folha, enumere quem virá morar em um prédio tombado, onde o início da dura jornada se dá no momento da saída do trabalho, quando se decide ir para casa - sem a devida segurança. Paradoxalmente, se tais locais não existirem, ninguém aparecerá no Centro apenas para apreciar o chafariz do Vale do Anhangabaú.
Essa discussão, de quem queimará a largada primeiro, permeia todas as (in)ações da iniciativa privada na região central. Novos empreendimentos culturais e de serviços somente se instalarão quando houver clientes em potencial. Porém, esperar que tais pessoas abandonem os shoppings e inundem noturnamente o Centro para passear e petiscar antepastos, beira um exercício de surrealismo.
Um pássaro me assoprou duas maneiras simples de fritar o ovo e ensopar a galinha ao mesmo tempo. A primeira, é mandar aos condes do Palácio Anchieta um projeto de lei isentando de qualquer imposto municipal, os projetos de reforma de prédios antigos que estejam dentro do perímetro Sé/República/Luz, que também determine a criação de um balcão especializado em aprovação urgente urgentíssima quando para fins de moradia. A segunda, é abonar o ISS por tempo determinado, de faculdades, restaurantes, bares, cinemas e teatros, que se instalassem na região central, propondo ao governo estadual fazer o mesmo quanto ao ICMS. Na primeira sugestão, o resultado é óbvio: sempre se cuida melhor do próprio quintal, além de se preocupar se a grama do vizinho está mais verde. O segundo, é resultado direto do primeiro: havendo gente para comprar, o resto acontecerá, como defendeu e comprovou o sr. Adam Smith.

Mais grades
A biblioteca Mário de Andrade continuará isolada da Praça Dom José Gaspar após sua reinauguração, prometida pela prefeitura para esse semestre. No projeto original de reforma, de responsabilidade do escritório Piratininga Arquitetos Associados, as grades que separavam a biblioteca da praça haviam sido retiradas, possibilitando maior integração do espaço público. “A prefeitura por iniciativa própria modificou o projeto, que agora conta com gradis“, conta a arquiteta Renata Semin.
7.000 vagas
Segundo o presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção Civil de São Paulo, Antônio de Sousa Ramalho, o ano de 2009 fechou com 7.000 vagas na construção civil na cidade de São Paulo sem que tivessem trabalhadores qualificados para preenchê-las. Quando se olha a quantidade de moradores de rua no centro de São Paulo a pulga atrás da orelha coça. Parte significativa dos moradores de rua poderia passar por um rápido curso do SENAI, patrocinado pela Prefeitura, sendo depois encaminhada para o mercado de trabalho sob a supervisão das secretarias do Trabalho e da Assistência Social. Se por um lado sobram vagas, por outro falta gestão.
Um chope no Brahma
A Secretaria do Verde e Meio Ambiente passou longos meses de 2009 tentando alugar o prédio da esquina da Avenida São João com a Ipiranga, a fim de instalar toda a repartição que funciona no bairro do Paraíso. Enquanto o Bar Brahma lota nos sete dias da semana, o prédio logo em cima com mais de 10 andares permanece vazio a mais de cinco anos, e em ótimas condições de uso - especulação pura e simples. Aposto um chope no térreo.

O Centro Cultural do Banco do Brasil
e o centro de Sampa

O diretor do Centro Cultural do Banco do Brasil em São Paulo, Marcelo Mendonça, comemora o recorde de frequência de público no ano de 2009 desde que o CCBB se instalou na região central, em 2001. Lutando contra a degradação e as dificuldades de acesso, Marcelo acredita que a situação em geral é melhor, mas ainda há muito por fazer. “No Rio de Janeiro a recuperação do Centro foi mais rápida”.
Quem é o frequentador do CCBB? É um público que já tem como hábito o consumo de cultura. Estudantes com pouca renda própria, empresários, aposentados e o trabalhador da região central, em menor escala.
A frequência tem aumentado? No ano passado foram 803 mil visitantes. Saímos de uma frequência diária de 400 em 2001 para 2.500 por dia em 2009. Um crescimento sólido que prova que a nossa ação cultural deu certo. Hoje operamos no limite da nossa capacidade.
Desde a inauguração do CCBB, qual sua avaliação sobre a revitalização do Centro? A paisagem aqui no Centro melhorou muito, mas ainda tem muito a ser feito. Quando nos instalamos, em 2001, estávamos praticamente sozinhos, com exceção do Centro Cultural da Caixa. Hoje temos academias de ginástica, diversas faculdades com cursos noturnos, restaurantes, novos cafés, empreendimentos que dão movimentação no final de semana. Um grande desafio é o acesso. Embora tenhamos metrô, as pessoas têm de sair da estação e caminhar até aqui, e a população do Itaim, Jardins e Vila Mariana tem a percepção de que o Centro é um lugar perigoso.
Mas é uma percepção ou é real? A percepção é real. Mas você observa as estatísticas e não corresponde! Muito por conta dos finais de semana e à noite, quando o Centro se esvazia e a população de rua passa a usá-lo como um dormitório. O nosso público sai do teatro por volta das 21h30, e para caminhar até o ponto de táxi ou estacionamento, passa por um corredor de pessoas dormindo. Se eu transferir o início da peça para mais tarde, será que as pessoas viriam, correndo o risco de se depararem com uma sensação mais inóspita ainda, ao sairem? Nos centros de Brasília e no Rio de Janeiro a última atividade começa às 21 horas. Aqui nós temos uma hora encurtada.
Toda essa dificuldade não confirma a falência do Centro como espaço público de convivência? Precisa ser trabalhado. Houve uma decadência desde a década de 60, e nós viemos para contribuir com o processo de requalificação. Quando nos instalamos no Rio de Janeiro, em 1981, a situação não era muito diferente. Mas lá foi mais rápido. Lá temos a Casa França-Brasil, o Centro Cultural dos Correios, o Paço Imperial, o Centro Cultural da Justiça Federal. O Centro virou um eixo cultural. Isso não aconteceu aqui, ainda. Não fomos muito seguidos pela área cultural.
Qual o principal entrave para seguirmos o mesmo caminho em São Paulo? Da parte do Poder Público, as condições de infra-estrutura: iluminação, estacionamentos abertos de noite e disponíveis, segurança e limpeza. É preciso que as pessoas sintam que podem vir, mas que voltarão seguras para casa, sem tropeçar nas pessoas dormindo nas calçadas, caminhando por ruas limpas e iluminadas. Que possam também usar o carro, mas os estacionamentos precisam estar abertos, pois ninguém quer deixar seu carro na rua e ficar sujeito a algum vandalismo.
Mas depender do carro para chegar ao Centro não é um contra-senso? As pessoas procuram juntar o seu lazer de qualidade com conveniência. A peça Hamelin esteve em cartaz no final do ano e ficou o tempo todo entre as cinco melhores da revista Veja. Mas por ser na região central acaba sendo preterida por outra que está no Renaissance ou no Frei Caneca. As pessoas querem conveniência, facilidades. Então a gente procura dar isso. Você deixa seu carro no estacionamento e uma van te busca e trás até a porta de modo seguro. Em Roma, por exemplo, você pode entrar no centro histórico de carro de noite e ir aos restaurantes, bares. Durante o dia tem as limitações para o carro. No começo a gente conseguiu isso, depois não mais.
Se essas questões urbanas fossem equacionadas você teria um aumento de frequência? Absolutamente. Pela sua história e sua arquitetura, o Centro é um patrimônio cultural que desperta interesse genuíno das pessoas.
Mesmo a classe média viria? Mesmo. O centro histórico é uma destinação em qualquer lugar do mundo. Florença, Amsterdã e Praga. Mais de 20% dos frequentadores são turistas. Você tem pontos históricos belíssimos e conservados. Como você vem a São Paulo e não vai à Sé, no Pátio do Colégio, no Mosteiro de São Bento?
Alguma novidade para 2010 em termos de ação cultural? Queremos expandir a atuação para fora das limitações das paredes do prédio. É um projeto que se chama no Centro da Arte. Começamos já em 2009 e queremos expandir. Levar para a rua, à Praça do Patriarca, ao Anhangabaú. Envolver as pessoas que estão circulando e pensando em outras coisas, trabalhando, e de repente se depararem com a ação cultural, uma manifestação artística - uma intervenção urbana, uma peça infantil. Nisso a prefeitura tem sido uma boa parceira.
O CCBB pode um dia se transformar em um centro 24 horas? Esse seria o sonho.
por Giscard Luccas