
por Giscard Luccas
Quinta-feira à noite
Quinta-feira, 21h30. Cruzo a Avenida São João pela Av. Ipiranga, e as calçadas parecem mais amplas. Foram-se os tapumes do metrô, e o novo piso sorri, colorido. Esquerda na São Luís. Um, dois estacionamentos fechados. Avanço mais um pouco, fechado também. Embico no hotel Jaraguá e entrego as chaves para o manobrista. Ainda não. À noite, somente para hóspedes. Nessa altura já pululuam na memória toda a argumentação que justifica o destino trágico da região central após as 20h. Mais uma volta. Algum santo lutou para deixar um aberto, obviamente para mim. Mas a alegria dura pouco, meu rei! Quase deixo a carteira: vinte e cinco reais por algumas horas. Mais ofensivo, apenas quando minha tia foi passear na Daslu e a extorquiram em trinta reais, mais as compras.

Esvaziado o bolso, parti para o recém-inaugurado Alberta #3, ainda na São Luís pouco depois da esquina com a Consolação. Um letreiro em vermelho-choque é o cumprimento na entrada, me puxando para uma atmosfera circense. A simpática hostess dá as instruções de praxe e me põe para dentro, já embalado pela sensação que gestava-se ali mais uma chance para a tão aclamada “volta” ou “revitalização” (palavra gasta!) do centro de São Paulo.
O primeiro friozinho na barriga é algo nostálgico: as paredes são forradas por um papel/tecido com temáticas xadrezes, ao estilo de uma aristocracia inglesa um pouco falida. As poltronas, em um couro vermelho-vinho, relembram antigas boates paulistanas dos anos 80, como o Gallery, e restaurantes como o Paddock, que ficava a poucos metros dali. Esse clima de eterna decadência gostosa contrasta com grandes fotos, fixadas nas paredes, de Bob Dylan e dos Stones, no auge da carreira, no começo dos anos 1960 – ainda sem rugas nem Photoshops. No andar de cima, o teto baixo e o longo balcão me traz um aconchego de segunda casa, à essa altura já apinhada de gente. Há um pouco de tudo: galera dos 40 anos, roqueiros, jovens nos 20, profissionais liberais, alguns gays e mulheres desacompanhadas. Todos acometidos por leve soberba, o famoso “carão”. Um comportamento anti-social que assola a noite paulistana, tornando-a muitas vezes chata e quadrada. Encosto no balcão e, embebido pelo clima oitentista, me atiro em um vermute Carpano Punt e Mess, que o barman antipaticamente me preparou. Mick Jagger canta “Start me up” e o passa-passa atrás de mim é intenso.
O clima em geral é sofisticado e alegre, ideal para um happy hour, ou algo a mais. Enquanto aguardo para pagar, viajo por todos os bares e boates que faziam do centro de São Paulo, nos anos 60, 70 e começo dos 80, o lugar da boemia não só dos artistas, mas de executivos e estudantes, e o seu progressivo fechamento nos anos 90.
Alberta #3 pode ser uma reversão desse panorama. O tempo dirá. A julgar pela fila na porta ao sair, pode ser um fio de esperança.

O que virou?
Baixada a poeira da Virada Cultural, o balanço desse ano é mais positivo que em 2009. O fluxo de pessoas melhorou substancialmente, com o aumento do número de palcos e da distância entre eles. O policiamento foi mais ostensivo e a diversidade das atrações musicais manteve o eclético espírito da Virada.
O sucesso de público, maior a cada ano, expõe, entretanto, as deficiências culturais que a cidade carrega já por muitos anos. O evento tornou-se tão simbólico que os frequentadores querem aproveitá-lo ao máximo, pois reúne gratuidade de boas atrações por 24 horas, e apenas uma vez ao ano. Isso leva os jovens a participarem maciçamente, beberem além da conta e causarem as violentas confusões decorrentes disso.
É injusto afirmar peremptoriamente que a equação gratuidade-muita bebida-confusão seja resultado da falta de opções culturais ou de lazer para um público mais desfavorecido economicamente, durante o restante do ano. Mas é inegável que se houvesse mais eventos de fomento à cultura como a Virada, em menor escala, mais vezes por ano, e para todas as idades em locais de fácil acesso, ninguém se jogaria no vinho “chapinha” com tanto entusiasmo como se a Virada fosse a última bolacha do pacote.
A Literatura das Ruas

No ano passado o escritor Ricardo Carlaccio lançou seu mais novo petardo: "Dois Minutos de Gasolina para a Meia Noite".
São sete contos de um escritor que normalmente prefere a solidão a entrar no "esquema" de grandes corporações.
Carlaccio escreveu seis livros, entre eles: "Postal Mambembe", "Balada Perdida", "Blues Escarlate", "Um Drink no Bunker", "A Última Ficha na Jukebox". Em seus livros podemos notar o autor influenciado por Mário Bortolotto, Jack Kerouac, Charles Bukowski, João Antônio, John Fante, David Goodis, só pra citar alguns em que Carlaccio bebeu em suas madrugadas tristes e solitárias nas ruas de São Paulo.
Você pode encontrar o "carcamano", como é conhecido, pelas ruas do Centro, principalmente na Avenida Paulista, onde todo dia ele vende seus livros de uma forma independente, sabe aqueles caras malas que às vezes nos abordam:"Você gosta de poesias?", o Carlaccio é ao contrário, ele vai deixar você dar uma lida em seus livros, e se você gostar do que leu, pode comprar numa boa, sem nenhum tipo de constrangimento, o Carlaccio é daqueles italianos "tutti buona gente".
Ricardo recomenda quadrinhos para quem quer aprender a escrever, e comenta sobre a Mafalda, genial quadrinho de Quino: "Você vai preso de estiver nu, isso não acontece se você não tiver cultura...".
O autor comenta sobre a região do Centro: "gostava mais do Centro quando ia ver bandas de rock and roll no bairro Bexiga, andávamos de bar em bar, tranquilos, isso na década de noventa. Gostava da noite aqui quando a prefeitura não pentelheva tanto, proibindo tudo, quando as pessoas andavam pelas ruas até tarde da noite. Com essas proibições, como o Psiu, os lugares fechados ficam lotados, como um monte de gente tão desesperada pra ficar feliz como naquela propaganda do DIC veinculada na década de 80. Nunca tive paciência pra isso. Tomar um vinho com a minha mulher enquanto assisto algum filme é muito mais divertido...".
O Ricardo é isso, esse cara que caminha nas ruas da cidade com a sua arma na mão, que é um bom livro, sua munição para esses politicamente corretos que estão infectando o Centro de São Paulo. Você pode não concordar com o radicalismo do autor, mas que invejamos a liberdade dele, isso é a mais pura verdade.
Se quiser adquirir um livro do escritor, entre em contato com ele: carlaccio.zip.net ricardocarlaccio@hotmail.com
Por Pedro Pellegrino
Contos infantis em cordel, na Livraria da Vila

O cordelista Varneci Nascimento lança, pela Panda Books, na Livraria da Vila, dois cordéis que prometem fazer sucesso, pelo inusitado. Trata-se de duas obras dessa vertente da literatura nordestina, com temática um tanto diferenciada: contos infantis. Os dois trabalhos a serem lançados pelo poeta baiano, integrante da Caravana do Cordel, versam sobre O Pequeno Polegar e Branca de Neve. O evento acontecerá no dia 7 de Agosto, das 15h às 18h, no primeiro endereço da Livraria da Vila - rua Fradique Coutinho, 915 - Vila Madalena.
Nascido em Banzaê - BA, Varneci Nascimento, graduado em História pela Universidade Estadual da Paraíba, é autor de mais de 200 folhetos de Cordel sobre as mais variadas temáticas. O massacre de Canudos, A Morte e a Justiça, Cangaço um Movimento Social, Peleja de Aloncio com Dezinho, Dez Mandamentos do Preguiçoso, Perfil Plítico Brasileiro e Um Corno pra cada dia do Mês, são alguns dos publicados.
“Humor no Procópio”

O ator e comediante Nelson Freitas apresenta seu show “Nelson Freitas e Vocês” no Teatro Procópio Ferreira. A apresentação, que faz parte do projeto “Humor no Procópio”, permanece em cartaz até 10 de Agosto.
No show de humor em formato "one man show", Nelson, conhecido por atuar no programa humorístico “Zorra Total”, da TV Globo (onde interpretava o “corno” do quadro "Márcia e Leozinho"), faz piada sobre fatos do cotidiano da sociedade brasileira: casamento, infidelidade, autoestima e melhor idade, interagindo com os espectadores com histórias e personagens hilários.
“Nelson Freitas e Vocês” tem duração de 70 minutos e é um entretenimento leve, descontraído, despretensioso e positivo. Com humor inteligente e histriônico característicos, o ator é dirigido por um dos maiores mestres do gênero: Chico Anysio, que agrega ao espetáculo sua marca inconfundível de elegância e qualidade, com a clássica picardia brasileira.
Serviço:
Nelson Freitas e Vocês
Temporada: até 10 de Agosto, às 21h das terças-feiras
Teatro Procópio Ferreira
Rua Augusta, 2823
Ingressos: R$ 50,00 e R$ 25,00 (meia - carteirinha de estudante e idosos)
Classificação: 14 anos
O teatro possui lugares para portadores de necessidades especiais
Mais informações: (11) 3083-4475
Exposição mostra a beleza no caos de São Paulo
O MuBE (Museu Brasileiro da Escultura) abre suas portas à partir do dia 6 de Agosto para receber a exposição “Aquém do Concreto”, do pintor alemão Jan Siebert, com curadoria de Lílian Heitor. A abertura oficial acontece dia 10 de Agosto às 20h.


A mostra é uma coletânea de quadros do artista “realista”, que evidencia a sua paixão pelo emaranhado de concreto das cidades. As telas eclodiram de sua estadia no porto da cidade de Santos e das andanças pelas ruas do centro de São Paulo, tendo como base a famosa Praça Roosevelt, permeada por sua aura artística.
O pintor encontrou nos prostíbulos, nos viciados e nos retidos à margem da sociedade, uma companhia para seu trabalho noturno e um cenário repleto de “formas pitorescas dentro do labirinto de concreto chamado São Paulo”, completa. Entre um café e outro, confiava aos moradores de rua e usuários de crack, o resguardo de suas telas e tintas. Pintou desde meretrizes às arquiteturas que guardam antigas e desconhecidas histórias, isso permitiu segundo o artista: “encontrar as tantas belezas possíveis que as coisas mais assustadoras reservam”.
Jan, 38, fugiu do caminho comum, reservado àqueles que desde criança encontram suas paixões vocacionais: frequentar universidades e cursos de preparação. Influenciado fortemente pelas pinceladas de Picasso, Edward Hopper e a escola clássica do cubismo, deixou para trás a carreira de ilustrador e posteriormente o curso de artes plásticas: “não queria ficar preso às rotinas das empresas, e descobri que o desenho vai muito além da superfície. Nas faculdades, as mil direções que você encontra para pintar, podem confundir o artista, e talvez você já tenha tomado a sua”.
O artista “andarilho”, e não é nenhum exagero que ele receba essa alcunha, deixou Hamburgo, onde nasceu, pois desde cedo vislumbrou terra fértil para sua arte na América latina. Entre o México, sua residência por sete anos e os diversos países europeus que percorreu, se deparou com o caos de São Paulo, ou com a denominação ideal que ele encontrou “grafitada” nos muros da capital “cidade pálida e desumana”.
Após seguidas exposições na Alemanha, o espaço cedido pelo MuBE, parece mais aconchegante às suas obras, segundo ele, “o tamanho permite que essa seja sua maior e mais interessante exposição”.
Serviço:
Exposição “Aquém do Concreto”
De 06 a 22 de Agosto
MuBE: Av. Europa, 218
De ter. a dom., das 10h00 as 19h00
Tel.: 2594-2601
Por José Eduardo Bernardes
O Falecido em Nova temporada
no teatro N.Ex.T.

O teatro N.Ex.T. (Núcleo Experimental de Teatro) prorrogou a temporada em cartaz do espetáculo “O Falecido” até 29 de agosto, as apresentações acontecem sempre as sextas e sábados às 21h30 e domingos às 19h30. A comédia com texto e direção de Antônio Rocco, faz parte das comemorações dos 11 anos do espaço teatral.
Após temporada de sucesso em 2002, a montagem retorna aos palcos do teatro com novos cenário e figurino assinados por Cássio Brasil e trilha sonora de Ricardo Severo. O experiente elenco conta com Lulu Pavarin, Antonio Destro, Luciana Caruso, Ivan Capúa e Mario Mathias, que já participaram de diversas produções no espaço N.Ex.T., como o “Festival do Teatro Grotesco” e na peça “A Loucadora de Vídeo”.
O espetáculo é formado por duas peças distintas, “Amor à Vista” e “O Falecido”. A primeira parte, “Amor à Vista”, mostra a aflição de dois casais a espera de seus pares em um cartório. Eles disputam com afinco a única cadeira disponível e esse entrave fica mais acirrado quando descobrimos que milhões de reais estão em jogo.
Já “O Falecido”, narra o velório de Hermelindo Saraiva, que acorda dentro de seu caixão e sem saber se está vivo ou morto, resolve ficar bem quietinho, escutando seus amigos e parentes, relatando os terríveis acontecimentos e as baixarias que motivaram a sua morte. Sem se lembrar do que aconteceu, ele aguarda as surpresas que essa noite lhe trará.
O teatro N.Ex.T. abre suas portas e viabiliza espetáculos experimentais, por isso é considerado como um centro de produção e difusão da nova dramaturgia brasileira. Além de montagens próprias, o teatro já sediou cerca de 100 espetáculos de grupos convidados, que dificilmente seriam recebidos em teatros de viés comercial. No ano passado, mais de 5.000 pessoas assistiram as montagens e o público engloba desde os moradores da região a críticos, jornalistas, artistas, profissionais e estudantes de teatro que se interessam pela cena teatral contemporânea.
Serviço:
Temporada: até 29/08
Ingressos: R$ 30,00 e R$ 15,00 (meia)
N.Ex.T - Rua Rego Freitas, 454
Tel.: (11) 3259-9636 e 3255-3642
Bodega do Brasil agora na Ação Educativa
A reestreia aconteceu em Julho e promete agitar o cenário da cultura popular em São Paulo.

Mais que exaltar a cultura em grande estilo, a Bodega do Brasil agora é um movimento. E seu objetivo é integrar artistas dos mais diversos segmentos, principalmente o popular: poetas, atores, cantores entre outros profissionais do gênero, agora podem interagir com seu público, num espaço totalmente cultural localizado no Centro.
Realizado todo terceiro sábado de cada mês, das 16h às 20h, no Ponto de Cultura Periferia no Centro (prédio da Ação Educativa), na Santa Cecília, a Bodega do Brasil, que teve sua reestreia este mês, revela um espaço aconchegante e original, com quadros fixos que contribuem para a participação ativa de quem vai apreciá-la.

O movimento, segundo a jornalista-poetisa e uma das coordenadoras, Daniella Almeida, reúne o melhor da linha cultural num só lugar. “Através de canjas, performances e improvisos que fazem parte das apresentações, a Bodega segue um roteiro autêntico e despojado”, afirma. “Ela funciona como ponto de encontro de artistas e apreciadores de uma cultura genuína”, complementa o cantor Costa Senna, coordenador artístico.
No último encontro, deram início às apresentações a Banda Bodega do Brasil, que soltou a voz com os artistas Costa Senna, Ornela e Júbilo Jacobino e em seguida com o cantor Luiz Wilson e a cantora Fatel Barbosa.

Quadros fixos como A Hora da Canja e o Arranjo Poético, também foram sucesso. No primeiro, artistas como Rhayfer, que toca MPB Regional e Chico Alves (da mesma linha), despertaram sentimentos únicos a quem pôde conferir de perto as apresentações. Já no Arranjo Poético, participaram com performances, o jornalista e poeta Carlos Moura, o ator Valdir Carlos, que declamou versos de Guimarães Rosa, o poeta e desenhista de São José do Egito (PE), Perazzo Castilho, Nizino Sandisse do movimento Mova e Varneci Nascimento, da Caravana do Cordel.
A festa também contou com o lançamento oficial da loja web voltada exclusivamente a produtos e serviços culturais, Compre Cultura (www.comprecultura.com) apresentada pelo produtor cultural Hellaydo Jean.

Também marcaram presença, a assistente de coordenação da Ação Educativa, Carolina Morais, representando o coordenador Eleilson Leite, a cordelista Cleusa Santo, Nando poeta e o jovem jornalista potiguar Vinícius Pereira, o artista plástico Dé Pajeú, o cantor Germano Júnior, Roberval Freire da Pastoral do Migrante, o humorista Chico Freitas, além de vários parceiros e apreciadores do movimento. O evento contou com a cobertura em vídeo do cineasta Henrique Drovandi da Cultuzone Filmes. O próximo encontro da Bodega acontecerá em 21 de Agosto.
Serviço:
Bodega do Brasil, um manifesto cultural
Terceiro sábado de cada mês, das 16h às 20h
Local : Ponto de Cultura Espaço Cultural Periferia no Centro (Ação Educativa)
Rua General Jardim, 660 - Santa Cecília
Outras informações: 11 6689-8961 ou nos endereços eletrônicos: www.bodegadobrasil.blogspot.com
bodega@danialmeida.com