O Farol da Ligth
Em 13 de julho de 1929, Mario de Andrade escreveu ao seu amigo, o poeta Manuel Bandeira:...”três horas duma noite que, além de ser noite de sábado, está de neblina formidável. Noite de sábado já é uma das coisas mais humanas de São Paulo. Todos os húngaros, tchecos, búlgaros, sírios, austríacos, nordestinos saem para passear, gente dura, no geral tipos horrorosos, mas me sinto bem no meio deles. E além disso: a neblina, um fog maravilhoso.
No Anhangabaú não se via nada de nada. Só os anúncios e o farol da Ligth circulando. Fui no cinema, vi umas besteiras, sai no meio e fui andando. Quando vi, estava no Braz. Então voltei procurando caminhos mais misteriosos, cheguei a ter medo no meio do parque Pedro II, completamente sem iluminação e com alguns ruídos nas moitas.
Depois atravessei o bairro turco e só quando esbarrei na estrada-de-ferro, vim me encostando nela até a rua Lopes Chaves. Muito apito de trem, várias propostas de aventuras, uma calma interior sem comparação, o espírito vivinho gozando em colher. Mas cheguei meio excitado, sem sono, e estou escrevendo.”
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Farol que existiu no prédio do Shopping Light, quando foi sede da desativada Light |
Manuel Bandeira foi o primeiro a trazer a público as cartas que Mario de Andrade lhe escreveu. Depois dele, muitos outros amigos do autor de Macunaíma, também publicaram as suas correspondências. Com delicioso sabor de indiscrição, bisbilhotei a carta de Mario, onde, com sensibilidade e carinho, São Paulo é retratada numa noite de sábado invernal. Nosso poeta fala de coisas que já desapareceram, como a paz noturna, a neblina e também o farol da Ligth. Porém, ainda persiste a falta de iluminação, que nos traz medo e insegurança.
No começo do século o futurismo de Marinetti fazia adeptos, pregando a exaltação do futuro através da tecnologia. A instalação de possantes refletores elétricos, no topo dos edifícios, tinha virado moda nas grandes metrópoles, correspondendo ao apelo progressista. São Paulo, que ensaiava seu salto em direção à metrópole, não poderia ficar à margem do modismo.
Havia poucos edifícios altos, e isso possibilitava que focos luminosos, acesos em noites festivas, varressem a cidade e se perdessem na linha do horizonte. Assim, o Edifício Martinelli e o prédio sede da Ligth (Alexandre Mackenzie, na esquina do viaduto do Chá com a rua Xavier de Toledo) foram os escolhidos para receberem poderosos refletores que fariam cruzar as suas luzes nos céus de São Paulo. E foi um espetáculo tão marcante que aquela visão ainda hoje é conservada por muitos dos antigos moradores desta cidade.
As preliminares da Segunda Grande Guerra e o crescimento vertical da zona central da cidade interromperam as apresentações luminosas, mas restou, no ponto mais alto do prédio Alexandre Mackenzie, exatamente onde e como foi instalado em 1929, o refletor dotado de dois bulbos de alta potência, cuja luminosidade é ampliada por um espelho côncavo que toma todo o painel do fundo.
A posição do refletor podia ser variada e, assim, varrer a linha do horizonte ou permanecer na vertical. Geralmente girava movido por um rotor, na posição de 45 graus.
E, naquela noite fria de sábado, por entre a neblina que cobria a paulicéia, ainda não tão desvairada, Mario de Andrade certamente se guiou pelo farol da Ligth, no seu passeio noturno desde o Brás a Barra Funda. Era a volta ao ninho do poeta, guiado em segurança pelos recursos modernistas da energia elétrica.
Pedro Nastri *
Jornalista e escritor
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