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Parabéns São Paulo! Viva o Povo Paulistano!

Nesta edição do mês de aniversário de nossa cidade queremos parabenizar a todos que ajudaram e aos que ajudam a construí-la - cidadãos paulistanos por nascimento e por adoção, principalmente àqueles que a adotaram e foram adotados por ela.

Muito já se falou e fala-se, Brasil afora, do gigantismo de nossa querida Sampa, que, inegavelmente, é multifacetada, mas também única, genuína. Ela consegue ser boa e cruel, simples e sofisticada, democrática e autoritária, linda e muito feia, rica e misérrima. Ela é a síntese do próprio contraste. Nossa Sampa registra os melhores e os piores títulos que uma cidade pode ter, mas, principalmente é uma cidade aberta, porque é plural e diversa.

Sampa, realmente é cosmopolita, é de todos os povos, e nela, misteriosamente, todos se entendem. Envolve gentilmente todos que a procuram, embora às vezes deixa muitos de seus filhos à míngua, abandonados à mercê da sorte. Mas, acaba acolhendo a todos, como diz o poeta: “quem nela não consegue viver, n’outro lugar nem sobrevive”. É terra de oportunidades, mas exige de todos que nela moram, trabalham e estudam, pontualidade, responsabilidade, desejo de progresso.

Aniversário é momento não apenas de comemoração, mas também de reflexão, revisão sobre erros e acertos. Como Sampa é extremamente dinâmica, muitas vezes passa por sobre sua origem, desconstruindo o antigo, destruindo seus registros e memórias, tentando substituí-los. Isso acontece com prédios, monumentos inteiros e mesmo com o testemunho de seus artífices, que sua gente atual não conheceu, não sabe quem são.

Sampa é viva, e se renova tanto que vai deixando seus lugares para flertar com outros novos. Ela passa, apressada, atropela e segue. Assim, nesse vai e vem, nas reviravoltas que a cidade dá, com sua dinâmica ímpar, o Centro muitas vezes é deixado de lado, pois “tem tudo já pronto e funcionando”. Mas Sampa é feita de homens, falíveis e substituíveis, então basta sua gente sentir saudades e desejar, a região retoma seu viço, sua beleza e seu lugar, pois faz parte de um organismo jovem - a cidade ainda é uma moça, e, como tal, sempre com pressa.

Mediante essa reflexão, parabenizamos a população de Sampa - paulistanos de todas as origens - e agradecemos pela convivência, na maior parte do tempo pacífica e quando não, tolerante. E pedimos, como parte da mesma, aos integrantes dos poderes Executivo e Legislativo, que cuidem dessa moça com mais amor e senso de justiça, e respeitem a todos cidadãos - os seus membros -, sem distinção; não apenas como contribuintes e eleitores, mas, antes e acima de tudo, como seres humanos - uma gente que pensa e age, que ama e odeia, sorri e chora, comemora e sofre. É plural e diversa, mas consegue administrar suas paixões e conflitos, passar sobre suas diferenças pelo amor e orgulho que tem de si.

Carlos Moura

Centro de São Paulo: plural e singular,
diverso e específico

Esta cidade, reconhecidamente plural, tem também especialidades ou singularidades. As tendências de algumas ruas ou áreas do Centro são o reflexo vivo da própria história da cidade, que em sua construção contou, além do esforço e da criatividade dos paulistas, com o inestimável trabalho de incansáveis imigrantes de todas as partes do mundo e migrantes de todos os estados do País, principalmente do nordeste.

Neste aniversário de 458 anos, o jornal Centro em Foco presta sua homenagem a algumas das ruas e locais especializados da cidade, resgatando fragmentos da sua história, da sua construção e da vida dos homens e mulheres que doaram ao seu desenvolvimento, conhecimentos e habilidades - decisivos para que a megalópole se tornasse que é hoje.

O charme do Bom Retiro nas vitrines
da rua José Paulino

A diversidade cultural a partir da chegada de estrangeiros no Bom Retiro, iniciada pelos judeus ainda nos anos 1940, não apenas injetou dinheiro no bairro, mas também uma nova técnica em termos de tecelagem e de comércio. A prosperidade deu margem à expansão do bairro, notadamente na área comercial, com isso incentivando a vinda de outros povos. Como os bolivianos, a partir do final dos anos 1960 e os asiáticos, mais recentemente, que igualmente trouxeram dinheiro e tecnologias novas a diversas áreas profissionais.

Hoje, as vitrines espalhadas pelo Bom Retiro, principalmente na rua José Paulino, são um atrativo especial para as clientes. “Estou aproveitando o período em que muitas lojas promovem ‘queimas’ com bons descontos”, diz a consumidora Eliete da Costa, enquanto atravessa apressadamente a rua.

Na José Paulino, em uma loja de roupas e acessórios, Andressa Souza de Oliveira, afirma que morar em São Paulo “tem sido estressante”, mas é um lugar muito bom para se adquirir conhecimento. “Embora eu trabalhe perto do Museu da Língua Portuguesa, não tenho tempo de ir lá”, desabafa por causa de sua rotina de trabalho. Para a vendedora Sara Gomes, amiga de Andressa, a cidade oferece grande facilidade para quem deseja mudar de profissão. Ela já trabalhou como recepcionista e há menos de três meses está na área de vendas. “A área de vendas é ótima porque conhecemos muita gente, inclusive estrangeiros que aparecem em busca de mercadorias”, conclui.

Em uma outra loja, de confecções, na mesma rua, a gerente comercial Kemily Mendonça, garante: “não há dificuldades em arrumar emprego em São Paulo”. Ela acrescenta, “comecei aqui há dez anos e por causa do meu perfil agressivo nas vendas, não demorou a avançar para a gerência”. Sua loja exibe um cartaz anunciando vagas em áreas, como vendas e estoque.

 

Santa Ifigênia dos eletro-eletrônicos

Polo do comércio de eletro-eletrônicos de São Paulo, a história da rua Santa Ifigênia remonta ao início do século XIX. Seu nome está ligado à igreja de Santa Ifigênia, que passou de uma pequena capela ao templo instalado na região atualmente, inaugurado em 1912.

No início do século XX, as melhores lojas de tecidos, peles e chapéus femininos estavam instaladas no logradouro. A clientela era formada principalmente pelas ricas famílias que moravam no então elegante bairro dos Campos Elíseos. Somente a partir das décadas de 40 e 50, surgem as primeiras lojas especializadas em material elétrico e eletrônico.

Há algum tempo, as grandes lojas que compunham a rua foram aos poucos sendo substituídas por galerias e pequenos boxes com itens que vão desde plugues, tomadas, placas e programas para computadores, a instrumentos musicais e videogames dos mais variados.

 

A ilha de flores do Centro: Largo do Arouche

A área hoje conhecida como "Vila Buarque" era de propriedade do Tenente General José Arouche de Toledo Rendon, no início do século XIX. Além de destacado militar, José Arouche foi o primeiro diretor da Faculdade de Direito de São Paulo e o primeiro diretor do Jardim Botânico. Introdutor da cultura do chá na cidade de São Paulo, o general chegou a plantar cerca de 54 mil pés em sua chácara.

No interior da chácara havia uma pequena lagoa que foi aterrada no final do século XIX, dando espaço aos primeiros logradouros da região. No entanto, somente em 1913, o espaço passou a ser conhecido como Largo do Arouche.Antes, o logradouro já havia recebido os nomes de Largo do Ouvidor, Largo da Artilharia e Praça Alexandre Herculano.
O maior símbolo do Largo do Arouche é reconhecidamente o Mercado das Flores. Ele passou a existir a partir de 1953, quando o prefeito da cidade à época, Armando de Arruda Pereira, deslocou para à area floristas da Praça da República. A Praça das Flores, como também é conhecido o Largo do Arouche, é o cenário de grandes obras de escultores brasileiros como Luiz Christophe e Victor Brecheret.

Além das flores, o Largo é conhecido por sua gastronomia. Ele abriga o primeiro bistrô francês da cidade de São Paulo, o La Casserole, fundado em 1954 pelo casal Roger e Tuna Henry e o tradicional restaurante de culinária italiana O Gato Que Ri, em pleno funcionamento desde 1951.


Avenida Duque de Caxias, reduto dos amantes de motos e automóveis

A avenida é uma homenagem ao patrono do Exercíto Brasileiro, Luiz Alves de Lima e Silva, conhecido como Duque de Caxias. Sua construção remonta aos anos de 1876 e 1877, época em que os empresários Frederico Glete e Victor Nothmann adquiriram a antiga Chácara Mauá, que futuramente constituiu o bairro Campos Elíseos.
Em 1881, a avenida começava na av. São João e terminava no antigo Largo Duque de Caxias, atual Praça Júlio Prestes. No século XX, porém, o trecho entre a av. São João e o Largo do Arouche, conhecido à época como rua Dona Maria Tereza,foi incorporado ao logradouro.

Atualmente, a avenida é reduto dos apaixonados por motociclismo e automobilismo. Nela e em suas transversais, eles podem encontrar os mais diversos produtos, desde capacetes, lanternas, equipamentos de som modernos, a peças para restauração e manutenção de veículos.

 

O ”Mercadão” e a rua 25 de Março

A rua 25 de Março nasceu como parte do entorno do Mercado Municipal da Cantareira, cujo espaço originalmente nasceu como casa de saúde, no final do século XVIII, e que posteriormente cedeu espaço como depósito de armas e munições quando o Brasil estava para entrar na II Guerra.

As origens dos dois locais no Parque Dom Pedro II se entrelaçam. O Mercado Municipal, ou “Mercadão”, tinha em frente uma estação ferroviária ligada à zona Norte. Especificamente a Cantareira de onde chegavam carregamentos de mercadorias. Por outro lado, no começo do século passado, a rua 25 de Março nascia por causa de comerciantes que aproveitavam a movimentação do mercado. O estabelecimento se notabiliza pela grande diversidade de produtos como verduras, frutas, carnes e frios. Já serviu como pano de fundo para novelas e filmes. Ficou conhecido também por sua arquitetura e vitrais. Mas o que chama mesmo a atenção para quem visita o local é a diversidade de mercadorias.

Febre de consumo - “Sempre venho aqui porque consigo encontrar o que quero”, afirma o escriturário Luiz Henrique Resende. “Normalmente venho fazer até mesmo compras para o mês aqui, com a minha família”, garante. Segundo ele, em dezembro último chegou a gastar perto de R$ 3 mil “porque nem pensava em levar muitas coisas, porém o preço estava acessível”. Para Resende, não apenas a facilidade de compras é um atrativo. “Moro aqui no Cambuci e trabalho na praça da Sé há 25 anos.” Ele garante que morar em São Paulo é como residir numa “verdadeira esquina do mundo, porque não apenas encontramos pessoas vindas de outros países, como também a diversidade cultural que elas trazem na bagagem”, frisa.

A secretária Luiza Fernandes, moradora do Cambuci, afirma que viver em São Paulo “é algo maravilhoso”. Ela assinala que não apenas o “Mercadão”, mas também a rua 25 de Março apresentam às pessoas de todos os lugares “oportunidades variadas pelas suas mercadorias”.

Dormindo na chuva - Marcelo Silva Santos já trabalhou nos dois lugares. “Fui carregador de mercadorias no “Mercadão” e como não tinha casa, acabava dormindo por aqui. A pior época era quando esta parte do Parque Dom Pedro ficava alagada e tínhamos que levantar rápido e encontrar um lugar seco. Havia comerciantes na 25 de Março que autorizavam os vigias para nos deixar entrar”, lembra. Ele conseguiu outro emprego em uma loja na rua 25 de Março, e, não muito depois, reuniu condições para financiar a compra de uma casa no Glicério: “hoje ela é minha e tenho melhores condições para manter a minha família”.

 

Rua da Consolação: no passado rua
do socorro, atualmente da decoração

Sua denominação deve-se a construção, em 1800, da antiga igreja de Nossa Senhora da Consolação, demolida em 1907 para a construção do novo templo projetado por Maximiliano Hehl - o mesmo autor da Catedral da Sé. Antes da demolição, porém, foi instituída nesse templo a Irmandade de Nossa Senhora da Consolação e São João Batista, responsável por cuidar da igreja e dos leprosos. À época, a Irmandade acolheu também vários doentes atacados pela epidemia de cólera morbus.

Com o avanço da epidemia de cólera, havia a necessidade de enterrar as vítimas, que até então, eram sepultadas nas igrejas. Para isso, apressou-se a inauguração do Cemitério da Consolação, em1858. Anos depois o cemitério tornou-se símbolo de ostentação e acompanhou a falência de famílias tradicionais da região, que ornavam seus túmulos com verdadeiras obras de arte de autoria de grandes escultores brasileiros como Victor Brecheret.

A rua é uma das principais vias que levam à av. Paulista e entre os anos 50 e 60 começou a receber as primeiras casas especializadas em iluminação, lustres, lâmpadas, materiais elétricos e de decoração, que ainda hoje fazem parte de seu atrativo comercial.

Próxima a badalados endereços como a rua Augusta e a avenida Angélica, o entorno conta com um comércio local variado, espaços de lazer, uma boa rede de hotéis, hospitais, importantes instituições de ensino, bancos e restaurantes. Além da Biblioteca Mário de Andrade, localizada no começo dela, que conta com um acervo de mais de 450 mil títulos e uma coleção com mais de oito mil livros raros.

 

Passeio pela região da Luz mostra
as várias faces da cultura

A região da Luz reserva aos visitantes um verdadeiro celeiro cultural. Para quem chega a São Paulo desembarcando ou mesmo para quem está passeando pela cidade, a estação da Luz oferece um visual deslumbrante. De manhã ou mesmo à tarde, os painéis no telhado oferecem um verdadeiro espetáculo de luz natural. No saguão, para quem aprecia a música com piano, pode se senter deste instrumento e demonstrar o seu conhecimento.

Ao lado da estação, a aventura cultural prossegue com o Museu da Língua Portuguesa. Aliás, a única do mundo em seu gênero. Do outro lado da rua está o parque da Luz, reunindo um grande acervo de plantas ornamentais originárias da mata Atlântica. Anexado ao parque, os visitantes podem estender o passeio à Pinacoteca do Estado de São Paulo, onde estão obras raras de pintores nacionais e estrangeiros.

A religiosidade está presente no Museu de Arte Sacra, em frente a Pinacoteca, na avenida Tiradentes. Caminhando em direção da estação Júlio Prestes, os visitantes podem conhecer ainda a Sala São Paulo, reconhecida como um dos cinco melhores espaços do mundo com excelente acústica para apresentações de sinfônicas e óperas. Tem ainda o Memorial da Resistência de São Paulo – o antigo Departamento Estadual de Ordem e Política Social (Deops-SP) -, com exposições alternativas sobre décadas de repressão política no Brasil.

Por fim, o passeio pode prosseguir para o Sesc Bom Retiro, recentemente inaugurado, em frente ao Museu da Energia e da Luz, ambos vizinhos do Teatro Grande Otelo, administrado pela Irmandade do Liceu. Em suma: São Paulo surpreende pela diversidade cultural apresentada a toda população.

 

Roosevelt, a praça da comédia e do drama,
da ficção e do real

A praça, reconhecida hoje como um dos principais pólos culturais de São Paulo e berço teatral da cidade, pertencia no século XIX à grande dama paulista D. Veridiana Prado. A partir de 1890 as chácaras começaram a ser loteadas, dando origem a diversas ruas e a atual praça, que por muito tempo ficou conhecida apenas como Praça da Consolação.

No final da década de 50, a praça era um imenso estacionamento onde se realizavam feiras nos finais de semana. No dia 25 de janeiro de 1970, após diversas reformas, ela foi finalmente reinaugurada. Porém, desde 1950, ela já reservava o nome de Praça Franklin Roosevelt, em homenagem ao 32º Presidente dos Estados Unidos.

Situada entre as ruas da Consolação e Augusta, na década de 50 era ponto de encontro de expoentes da Bossa Nova em São Paulo, entre eles Johnny Alf e Zimbo Trio. A Praça também foi palco do primeiro show de Elis Regina na cidade e sede do primeiro cinema de arte de São Paulo, o Cine Bijou.

No começo do século XXI começam a desembarcar na praça grupos teatrais, entre eles os Parlapatões e os Satyros, em uma época que a região passava por uma degradação gravíssima. Hoje a Roosevelt virou um espaço para o teatro underground, que fez renascer outros comércios no entorno. Atualmente, a praça passa por mais uma reforma, fruto de projetos polêmicos, que geraram grandes debates entre moradores e o poder público paulista.

 

O Bixiga na ótica de um morador singular

O bairro do Bixiga, atualmente com 38 cantinas, tem sua origem datada do final do século XVIII. “O nome surgiu por causa do proprietário das terras que abrangiam do que hoje é a Consolação até a Liberdade, o fazendeiro Antônio Pinto”, revela o presidente da Associação de Moradores e do Centro da Memória do Bixiga, Walter Taverna.

Segundo ele, em 1878, imigrantes italianos vindos de Nápoles, Calábria e Cicília; além de portugueses e alemães, atraídos pela promessa de obterem novas terras por meio da lavoura acabaram se fixando nesta região. “Acontece que o Antônio Pinto morreu por causa de varíola; doença que atinge a bexiga. Daí o nome do bairro que florescia”, explica. “Houve uma primeira decadência a partir dos anos 1920, quando herdeiros dos proprietários de terras adquiridas pelo que hoje seria uma empresa de empreendimentos, não souberam tocar o bairro como deveria”, esclarece. A partir daí, surgiram os cortiços proporcionando a novos paulistas - emigrantes nordestinos -, a possibilidade de morarem perto do trabalho.

Cinquenta anos depois, o Bixiga se consolidava como bairro renomado na área gastronômica. As suas cantinas passaram a ser procuradas por moradores de outros bairros. Porém, as famílias tradicionais mudavam para a Vila Madalena, Pompéia e Tatuapé. Em 1987, isto representava a segunda decadência do Bixiga. O motivo da debandada, desta vez, era o início da especulação imobiliária contida por Walter Taverna, por intermédio de uma ação popular. “Encaminhei à Prefeitura o projeto de tombamento do bairro.” O processo correu até 2002, quando o Bixiga foi reconhecido como patrimônio histórico e arquitetônico, para ser oficialmente tombado, impedindo demolições.

Além das cantinas, o que deu fama ao bairro foi a boemia. O Bixiga integrou um circuito boêmio, encabeçado por Adoniram Barbosa, o Charutinho, que morava na Cidade Ademar “mas sempre frequentava a minha cantina com a esposa; também Benedito Ruy Barbosa, Rubinho Barrichello e muitas outras personalidades ligadas a cultura paulista, faziam o mesmo”, lembrou. Walter Taverna assegura que hoje, o Bixiga - oficialmente bairro da Bela Vista, desde 1982 - tem pelo menos 80 mil moradores e destes, 40% trabalham no bairro. “A maioria é formada pelo nordestino que conquistou o mundo com a culinária. Tanto que a melhor pizza do mundo é a de São Paulo”, completou.

 

Point de todas as galeras de jovens
é a Galeria do Rock

Fundada em 1963 com o nome de Shopping Center Grandes Galerias, o prédio - projetado pelo arquiteto Alfredo Mathias - está localizado entre a Rua 24 de Maio e o Largo do Paissandu e possui cerca de 450 estabelecimentos comerciais. Em seu início abrigava apenas salões de beleza, lojas de serigrafia e assistências técnicas de aparelhos eletro-eletrônicos.

No entanto, no final da década de 70, lojas de discos começaram a se instalar no local e devido o grande número de estabelecimentos voltados para os roqueiros, passou a se chamar Galeria do Rock. A Galeria é um espaço que reúne todas as tendências da moda das ruas. Um local onde roqueiros se encontram com skatistas, tatuadores, comerciantes e amantes da cultura hip-hop.

São vendidos CDs e vinis, entre raridades e lançamentos dos mais variados ritmos, vídeos, camisetas, acessórios, bandeiras, pôsteres e itens de decoração. Estúdios de piercing e tatuagem dividem espaço com fã-clubes de bandas como Beatles, Sepultura, e Raul Seixas. Além de acolher lojas de roupas, estabelecimentos de serigrafia, salões de cabeleireiros, oculistas e alfaiates.

 

Augusta, a mais diversa e plural via do Centro

Embora não existam registros oficiais que comprove, seu primeiro nome foi rua Maria Augusta. A antiga trilha de terra batida foi urbanizada por iniciativa do português Mariano Antonio Vieira, proprietário da Chácara do Capão, que englobava à época o logradouro. Em sua propriedade, Mariano abriria ainda o bairro da Bela Cintra e diversas outras ruas como a Frei Caneca e a rua da Real Grandeza, atual Av. Paulista.

Quando decidiu urbanizar a rua Augusta, a ideia do desbravador português era criar uma via que levasse os bondes até o centro da cidade. O fato teria ocorrido entre 1890 e 1891, período em que os bondes paulistanos eram puxados por burros, e na cidade ainda não havia eletricidade. A urbanização chegou primeiramente ao lado hoje conhecido como baixo Augusta, sentido Centro; depois passou a ser povoada no sentido Jardins, atravessando a av. Paulista.

Nas décadas de 1950 e 1960 foi considerada uma das mais charmosas ruas da cidade, o que não a livrou da decadência, posteriormente, com a concorrência dos “shoppings”: os comércios deram lugar a casas de meretrício e pequenos bares nos anos 1980. Historiadores contam que em 1993, com a instalação do Espaço Unibanco de cinema, a Augusta ganhou novo ar e voltou a ser frequentada. No entanto, só no começo dos anos 2000, com a abertura de importantes casas de shows, que a rua passou a ser conhecida como símbolo de pluralidade e espaço “hype”, que abriga desde jovens modernos a prostitutas de luxo, de emos a roqueiros, de “playboys” e “patricinhas” a gays.

A despeito das circunstâncias, sua continuação no sentido Jardins manteve o glamour e, ainda hoje abriga o comércio de importantes grifes de roupa e casas de artigos de luxo. Na Augusta, o contemporâneo convive com o antigo: numa caminhada pelo baixo Augusta, por exemplo, depara-se com a histórica chapelaria “Plas”, ali desde a década de 1950 e mais adiante, com a atualíssima casa de balada “Inferno”. Comida internacional, teatro e sinuca, também convivem harmonicamente. Atualmente, a rua Augusta vive um novo ciclo: as velhas casas de meretrício e antigos terrenos baldios estão perdendo espaço para os empreendimentos imobiliários. Por ora, o entretenimento é seu símbolo.

 

A praça Antônio Prado segundo
trabalhadores locais

Augusto Brás Alves trabalhou como engraxate por cerca de 20 anos, na praça Antônio Prado. Conhecido como um dos profissionais mais antigos no local, onde começou em 1986, ele presenciou a alvorada do antigo pregão da Bolsa de Valores, com a chegada do sistema digital. “Muitos corretores e executivos apareciam para engraxar os sapatos a todo o momento”, lembra.

A mudança dos tipos de calçados também ajudou na redução da clientela, como Augusto Alves lembra. “Hoje, tem uma variedade de sapatos e de tênis que não exige este toque de vaidade e higiene”, comenta. Mas entre os anos de 1980/90, ele teve clientes ilustres como o ex-goleiro do São Paulo, Gilmar; o ex-pugilista Adilson Maguila dos Santos.

Entre as duas engraxatarias na Antônio Prado está uma tradicional banca de jornal. À frente do estabelecimento há seis anos, Rita Almeida dos Santos lembra do apogeu da praça Antônio Prado, quando o Banespa mantinha atendimento ao público no antigo Edifício Altino Arantes. “Isto aqui era um verdadeiro ‘formigueiro’ com muita gente indo e vindo o dia todo”, conta.

Segundo ela, com o fim das atividades do Banespa no prédio, este passou a apenas receber grupos de visitantes. “Mas agora até as visitas pararam e o prédio fechou de vez.” Rita dos Santos assegura que empreendimentos em outras regiões acabaram “levando executivos e analistas para outros localidades, e com isso a nossa clientela acabou caindo... mas é reflexo do progresso desta cidade.”

Também há pouco mais de 20 anos, Carlos da Silva passou a integrar o corpo de funcionários da Bolsa Mercadorias & Futuro (BM&F), como analista. Para ele, uma característica na Antônio Prado não mudou: “Aqui tudo continua muito corrido”, mesmo com a chegada do e-mail, internet e do celular, instrumentos que facilitaram muito a vida moderna. Continua difícil até mesmo para andar, afirma Carlos da Silva. “Mesmo assim, a cidade continua sendo um bom lugar para morar e trabalhar, por causa das diversas opções que apresenta”. A correria das pessoas de um lado para outro parece, mesmo, evocar o constante crescimento da metrópole.

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