Ah, São Paulo! Começo neste suspiro porque muitas histórias estão guardadas dentro da sua.
Ai São Paulo! Estou gemendo porque muitas dores estão dentro das suas . Por que, São Paulo? E pergunto, porque muitas perguntas você faz para a sua gente. Pôxa, São Paulo! E você me devolve a reprovação.
Fato é que você não cansa. Você, São Paulo, morre e ressuscita todos os dias. Sofre com a marreta, a picareta e a britadeira. No outro dia você reage com o ferro a e o cimento. Você perde o mato e revive com o canteiro. Sujam suas ruas e você insiste com restaurações. Disparam revólveres e você se recompõe com vidas nascentes.
Do seu coração tiraram os trilhos. Você nem ligou, voltou com redes elétricas. Tiraram as redes elétricas, você reagiu com corredores. Mudaram sua aparência e você, novamente, redesenhou suas ruas. Quando elas estavam sujas e invadidas, você, de novo, descortinou suas fachadas.
Sua gente é que não muda. É gente variada. Gente que suja, destrói e nem liga. E outra gente que limpa, reconstrói e continua ligando. Gente de fora e de sempre. Gente que vai, gente que vem, gente que nasce, gente que morre. Gente que luta. Sua luta é dos bravos!
Bem que você queria ficar quietinha, de papo pro ar. Mas você não consegue, já acostumou a se mexer. Você, de fato, não pára. Não há manhã sem trabalho. Não há tarde de descanso. Não há noite, nem silêncio.
Éh, São Paulo! Você já experimentou contar os pés que andam pelas suas calçadas e ruas? Já pensou quantos? Já pensou nos sorrisos, nos choros, nos gritos, nas palavras, no barulho, na música do seu trabalho incessante?
Ah, você não pára nem pra considerar essas coisas! Você é elétrica. Deixa todos elétricos. Sobe-se nas escadas rolantes em movimento. Atravessa-se os seus cruzamentos sem medo. Anda-se correndo. Come-se em pé. Fala-se depressa. Pensa-se rápido. Rouba-se ligeiro. Repousa-se pouco. E a vida continua e você não pára.
Você quis passar na frente de outras na hora de ser inaugurada. Quis sair na frente para desbravar territórios. Quis ser mais rica. Depois quis crescer e nunca mais quis parar. Você é mesmo totalmente demais, São Paulo!
Candida Maria Vieira
Outubro de 2003 |